Jun
16
2019

Greve geral leva multidões às ruas e luta contra o ‘fim da Previdência’ ganha força

No Rio, dezenas de milhares de manifestantes ocuparam a av. Presidente Vargas; paralisação teve forte adesão na Educação

Passeata na av. Presidente Vargas, no Centro do Rio na greve geral de 14 de junho Passeata na av. Presidente Vargas, no Centro do Rio na greve geral de 14 de junho / Vanor Correa - especial para a Aduff

DA REDAÇÃO DA ADUFF

“Não vai ter reforma, vai ter luta”. ‘Parodiando’ a palavra de ordem que simboliza os atos em defesa da Educação, o grito entoado pela multidão que percorreu a avenida Presidente Vargas de certa forma resumia o sentimento dos manifestantes ao final daquela jornada de mobilizações contra o que classificam com uma proposta de destruição da Previdência Social pública no Brasil, que está em tramitação na Câmara dos Deputados.

Dezenas de milhares de pessoas, há estimativas que avaliam em até 100 mil, ocuparam a principal avenida do Centro do Rio de Janeiro, na sexta-feira 14, na greve geral contra a PEC-6, a proposta de emenda constitucional que muda as regras previdenciárias do país e que o governo de Jair Bolsonaro tenta aprovar no Congresso Nacional.

Os manifestantes, seguramente de mais de duas dezenas de categorias profissionais, além de muitos estudantes, se reuniram na Candelária, ainda na parte da tarde. De lá saíram em passeata, no início da noite, no sentido da Central do Brasil, para uma caminhada de 1,8 quilômetro. Docentes, técnicos-administrativos e estudantes da Universidade Federal Fluminense, que parou por 24 horas na greve geral, participaram em bom número da atividade.

Parte das professoras e professores da UFF se reuniram, antes, na Praça Araribóia, em Niterói, de onde se deslocaram de barca até a Praça XV, no Centro do Rio. A Aduff levou faixas, bandeiras e adesivos para o protesto e convidou a categoria a caminhar junto ao balão do Andes-Sindicato Nacional, referência de localização nos protestos na capital fluminense.

Repressão policial

Ao final da caminhada até a Central do  Brasil, as pessoas que participavam do ato foram violentamente reprimidas pela Polícia Militar, na altura do prédio no Ministério do Exército. A PM lançou muitas bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Houve correria e boa parte da multidão acabou se dispersando, quando o protesto estava prestes a se encerrar.

Manifestantes que estavam no local afirmam que a ação violenta da polícia ocorreu no momento em que algumas pessoas soltaram fogos de artifício, mas que não foram direcionados às tropas ou a quaisquer pessoas. "A polícia fez o que sempre tem feito ao final dos atos no Rio, para criar a ideia de baderna para aparecer na TV", disse um estudante ao deixar o protesto em direção ao metrô. A PM divulgou nota na qual diz que foi atacada com pedras - não há relatos entre manifestantes de que isso tenha ocorrido e motivado o ataques com bombas.

Pelo país

A greve geral foi marcada por paralisações e atos em centenas de cidades do país. Começou nas primeiras horas da manhã com bloqueios de rodovias e atos em algumas das principais vias das cidades. Houve manifestações ao longo de todo o dia. Em algumas capitais, como Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife, aconteceram grandes manifestações, que levaram multidões às ruas contra o governo.

No ato unificado do Rio, a presença das comunidades universitárias e escolares foi em grande número. Universidades federais e estaduais e escolas e institutos federais, estaduais e municipais do ensino básico, além de instituições privadas, aderiram à greve geral com forte paralisação em todo o Estado do Rio de Janeiro.

A professora Agatha Justen, do curso de Administração da UFF, comentou que esse foi o primeiro grande protesto do conjunto da classe trabalhadora que enfrenta o governo do presidente Jair Bolsonaro e que, neste aspecto, teve um impacto significativo, apesar de a greve geral não ter conseguido parar todos os setores da economia, como seria o ideal. “É um primeiro ato de volume dos trabalhadores no atual governo, é o início de um processo [que pode crescer]”, disse.

Perguntada pela reportagem, avaliou que os recuos que o relator da PEC da Previdência, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), fez no relatório lido na véspera, dos quais se destaca a retirada da capitalização, não alteram o caráter perverso da proposta contra os trabalhadores. Mas, por outro lado, sinalizam certa “fragilidade” do governo na tramitação da reforma, o que pode ser explorado pelo movimento que defende o direito à aposentadoria. “Essa fragilidade não é só pelo parlamento ou só pela via popular, é um somatório, mas que revela a importância que tem para o governo aprovar a reforma de qualquer maneira. É também aí que entra a mobilização, é uma brecha que se abre para a gente conseguir [atrapalhar a reforma]”, disse.

Para a servidora Fernanda Araújo, do Colégio Pedro II, o governo se enganou se achava que não haveria luta. "É importante mostrar que a gente não está parado, que não vamos aceitar tudo de forma passiva, vamos lutar", disse. A educadora destaca a dimensão dos últimos atos - “o de 15 [de maio] foi o maior de todos - e acredita que o movimento pode crescer muito mais. Assim, nas ruas, avalia, é possível deter o retrocesso. “Com a população vendo todo mundo vindo e lutando, acho que vai crescer. Acho que é possível [impedir a reforma] sim. E se não for, mesmo assim a gente vai lutar", disse.

DA REDAÇÃO DA ADUFF
Por Hélcio Lourenço Filho

 

Passeata na av. Presidente Vargas, no Centro do Rio na greve geral de 14 de junho Passeata na av. Presidente Vargas, no Centro do Rio na greve geral de 14 de junho / Vanor Correa - especial para a Aduff

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