Jul
03
2025

Colaboracionismo na Uerj: "Irmão de reitor foi um dos signatários do AI5", diz Rafael Brandão

Rafael Brandão, docente da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, participou do debate "A Ditadura e as Universidades Públicas do Rio de Janeiro", organizada pela Diretoria da Aduff e pelo Grupo de Trabalho em História do Movimento Docente (GTHMD) da seção sindical.  A atividade aconteceu no dia 25 de junho, no campus do Gragoatá, em Niterói, com transmissão ao vivo no canal do Sindicato no You Tube. Foi mediada por Joana D'Arc Ferraz, dirigente do sindicato de professores e professoras da UFF e coordenadora do GTHMD local. 

Contou também com a participação de Ana Beatriz de Oliveira (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ); Rafael Vieira (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ); Rodrigo Castelo (Universidade Federal Estado do Rio de Janeiro - Unirio) e Wanderson Melo (Universidade Federal Fluminense - UFF), professores e especialistas no tema. 

Rafael Brandão apresentou dados do trabalho "A ditadura militar na Uerj: repressão, colaboracionismo e resistência". Ele integra a Comissão da Verdade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, criada em 2024 e nomeada de Luiz Paulo da Cruz Nunes – um dos estudantes vitimados pela violência daquele regime. 

O pesquisador trouxe elementos sobre a criação da Uerj, que completou 75 anos recentemente. Nascida em 1950, à época denominada Universidade do Distrito Federal, teve origem na fusão de quatro instituições – Faculdade de Ciências Médicas; Faculdade de Direito; Faculdade de Ciências Econômicas; Faculdade de Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto La-Fayette. "Em 1958, ela muda de nome e passa a se chamar Universidade do Rio de Janeiro; em 1961, com a transferência da capital para Brasília, virou a Universidade do Estado da Guanabara (UEG)", contou. 

Rafael mencionou que a construção do campi do Maracanã, em 1965, se deu a partir de violenta remoção da Favela do Esqueleto, com prisão de liderança comunitária e repressão policial. Ainda no contexto da ditadura e de outros cenários de violações, o professor comentou sobre expulsão de estudantes por decreto e casos de aposentadorias compulsórias pelo AI 5. "Um trabalho importante e que embasa nossas pesquisas, elaborado pela professora Deise Mancebo, apresenta uma entrevista do então reitor João Lyra Filho, que afirma nunca ter recebido os pedidos de cassação desses docentes. No entanto, mesmo assim, ele deu continuidade a esses processos", revelou.

Naquela conjuntura, o Diretório Acadêmico de Medicina foi fechado e, algum tempo depois, sofreu atentado a bomba; houve casos de prisão e interrogatório forçado de estudantes da Uerj, a exemplo do que aconteceu com o Luiz Tenório, aluno de Medicina, que era militante e atuante. "Ele foi torturado no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e encontrou um colega de turma. Quando ele viu o colega e médico, ficou aliviado, imaginando que ele fosse passar informações para a família, dando conta da localização dele. No entanto, esse colega médico estava no DOI-CODI em colaboração com os militares e atestou que o Tenório poderia prosseguir sendo torturado por mais um tempo", contou Rafael.  

Além disso, dois estudantes da Uerj foram assassinados pela ditadura: Luiz Paulo Nunes, da medicina, que foi morto em uma manifestação em Vila Isabel; e Reinaldo Silveira Pimenta, do curso de Engenharia e integrante do MR-8, morto em um 'aparelho' em Copacabana. "Na versão oficial consta que ele se jogou, mas depois isso foi desmentido", afirmou.

A turma de formandos da Medicina, na qual deveria estar Luiz Paulo Nunes e que recebeu o nome dele em homenagem póstuma, foi impedida de colar grau pelos agentes da ditadura, em 1972. "Invadiram a cerimônia e proibiram o discurso do paraninfo. Essa turma só foi se formar em 2008, em um processo simbólico", contou o professor, que pontuou o forte colaboracionismo de dirigentes da Uerj com o regime. 

Não à toa, o principal pavilhão da instituição no Maracanã tem o nome do reitor João Lyra Filho. "Ele era irmão do general Aurélio Lyra Tavares, que foi Ministro do Exercito durante o governo do Costa e Silva. Quando o presidente foi afastado por motivo de doença, Aurélio Tavares integrou a junta militar e foi um dos signatários do AI 5", disse. 

Segundo Rafael, alguns professores também foram cedidos para participar de projetos educacionais da ditadura, demonstrando a relação orgânica entre a instituição e o regime de repressão. "Raul Jobim Bittencourt atuou na elaboração do Plano Nacional de Educação, de 1967; e o João Lyra Filho compôs o Grupo de Trabalho para a criação do Anteprojeto da Lei da Reforma Universitária", afirmou o pesquisador, falando ainda sobre vários convênios estabelecidos com instituições militares e a participação no Projeto Rondon. "A dimensão do colaboracionismo desmonta a tese de que não houve ditadura na Uerj/UEG. Assim como outras instituições, a Uerj/UEG foi um espaço de repressão e de violação dos Direitos Humanos", concluiu. 

Para ver o exato momento da fala de Rafael 

Da Redação da Aduff
Foto: Aline Pereira