Jul
18
2017

62° Conad foi o primeiro evento deliberativo do ANDES-SN com ‘Comissão de Enfrentamento ao Assédio’, após denúncias no 36° Congresso

Peça ‘Bonecas Quebradas’ propôs reflexão sobre violência contra a mulher e dialogou com campanha contra assédio lançada no Conad de Niterói

Peça Bonecas Quebradas foi apresentada no primeiro dia do 62° Conad Peça Bonecas Quebradas foi apresentada no primeiro dia do 62° Conad / Luiz Fernando Nabuco
Foto: Luiz Fernando Nabuco

Idealizada pela professora da UFRJ Lígia Tourinho e por Luciana Mitkiewicz, a peça “Bonecas Quebradas” foi exibida na noite do primeiro dia do 62° Conad, em Niterói. O espetáculo que tem como pano de fundo os femincídios ocorridos desde a década de 1990 em Ciudad Juarez, no México, faz um paralelo com a realidade de violência contra a mulher no Brasil. A peça que sensibilizou os participantes do Conad já havia sido encenada na UFF, em março deste ano, como atividade de encerramento da Aduff-SSind ao mês de luta das mulheres. “Ela é um soco no estômago, aguça nossa sensibilidade, principalmente para nós mulheres que vivemos isso no dia a dia. Por isso pensamos em trazê-la para o Conad”, ressaltou Antoniana Defilippo, diretora da Aduff-SSind, seção sindical que sediou o evento.

‘Bonecas Quebradas’ foi encenada no mesmo dia em que a ‘Comissão de Enfrentamento ao Assédio’ do 62° Conad era apresentada aos docentes que participavam do evento. Composta por três membros da Diretoria Nacional e dois membros indicados pela Aduff-SSind, a comissão tinha como função receber e apurar possíveis denúncias de assédio sexual e moral no Conad. A comissão foi incorporada ao Regimento do evento por iniciativa da diretoria do Sindicato Nacional, depois que docentes e trabalhadoras do 36º Congresso do ANDES-SN, realizado em janeiro deste ano, em Cuiabá (MT), denunciaram casos de machismo e assédio ocorridos na principal instância de deliberação do movimento docente. Na época, as mulheres ocuparam o plenário do Congresso com cartazes e faixas e indicaram a constituição de uma comissão para apurar as denúncias de assédio e machismo nos eventos do ANDES-SN.

Para a professora da UFRJ e 1°tesoureira da Regional Rio do ANDES-SN, Mariana Trotta, a incorporação da peça à programação do Conad foi oportuna. “Em um momento em que o ANDES-SN está debatendo a questão do assédio sexual depois de uma série de questionamentos e problemas que ocorreram no último Congresso Nacional, trabalhar o tema através de outra linguagem reforça a necessidade do debate e contribui na reflexão sobre as práticas que reificam as mulheres e reforçam esse assédio. O feminicídio é a vertente mais brutal da naturalização dessas violências contra a mulher que compõem, historicamente, essa sociedade capitalista, racista e patriarcal”, defendeu.

O Grupo de Trabalho de Políticas de Classe, Questões Étnico-Raciais, Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) lançou, no 62° Conad, uma campanha de combate ao assédio moral e sexual com cartazes, adesivos e vídeo sobre o tema, além de apresentar a edição atualizada da cartilha “Contra todas as formas de assédio, em defesa dos direitos das mulheres, das/os indígenas, das/os negros, das/dos LGBTs". A cartilha pode ser lida na íntegra em: http://portal.andes.org.br/imprensa/documentos/imp-doc-1669293546.pdf

Lançamento da campanha de combate ao assédio sexual aconteceu na Plenária de Abertura do 62° Conad

“O 62° Conad foi o primeiro evento deliberativo do ANDES-SN depois do que aconteceu no 36° Congresso Nacional. Nós não tivemos nenhuma denúncia formal à Comissão aqui em Niterói, o que não significa dizer que não houve, embora possa indicar um recuo daqueles que praticam assédio. Sem dúvida, é um avanço a gente ter no regimento de um evento deliberativo do Sindicato Nacional a criação de uma comissão de enfrentamento ao assédio, mas nossa intenção é que essa comissão seja permanente. Vamos construir uma proposta de regulamentação e de funcionamento a partir das experiências de Cuiabá e deste Conad e propor, no próximo Congresso Nacional, sua inclusão no Estatuto do ANDES-SN", destacou Caroline Lima, integrante da Comissão de Enfrentamento ao Assédio do 62° Conad pela diretoria do ANDES e da coordenação do GT de Políticas de Classe, questões étnico-raciais, Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS).

A 1° vice-presidente da regional Nordeste III do ANDES também ressaltou o impacto da campanha contra o assédio lançada pelo GTPCEGDS, no Conad. “O material produzido foi bastante elogiado e o GT está sendo convidado pelas seções sindicais para fazer esse lançamento nos Estados. Isso foi muito positivo”, avaliou. Ela lembra, entretanto, que a campanha faz parte de uma luta muito maior. “A cultura do estupro, do assédio e do machismo está entranhada na gente desde o processo de formação do Estado Nacional brasileiro. O processo de colonização foi pautado no sofrimento e no estupro de mulheres indígenas e negras. A cultura do machismo está em vários espaços, está institucionalizada, como mostrou a peça. Queremos ir além das denúncias, queremos formar os companheiros e as companheiras para romper com essa cultura que naturaliza a violência, que diz que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, que alimenta a homofobia, a transfobia. A gente ainda tem que avançar muito. A campanha é uma conquista, uma vitória, mas é só o começo”.

A professora substituta da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Linna Ramos concorda. Ela conta que ouviu, em um dos grupos mistos do 62° Conad, piadas sobre a Comissão de Enfrentamento ao Assédio. “Era uma mesa coordenada só por mulheres. Quando acontecia discordância na condução dos trabalhos, sempre rolava uma piada, uma brincadeira. Em dado momento, um professor fez referência 'à capacidade das mulheres' de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. Não bastasse o clima desconfortável, de pensar se a gente iria responder ou não a esse comentário, um outro professor que estava sentando atrás da mesa de trabalho emenda ‘ih, vai dar problema, leva para comissão de assédio’, querendo tirar uma onda com a luta das mulheres”, relata.

Linna continua. “Todas as mulheres de modo geral sofrem assédio, não só moral como sexual também. Então, infelizmente, isso ainda é uma prática recorrente que só a luta das mulheres organizadas pode mudar. Se tem alguém que pode fazer piada sobre comissão de assédio, só pode ser um setor que está sentado em cima de privilégio. A comissão não é motivo de piada, nem brincadeira para as mulheres. É fruto de uma de uma luta que estamos travando há muito tempo e não vai parar na comissão. Vamos seguir fazendo debates e ocupando todos os espaços do Sindicato Nacional para demonstrar para os nossos companheiros que, infelizmente, são em maioria brancos e cis, que eles não podem falar e fazer o que eles querem ao bel prazer de serem homens”, finalizou.

DA REDAÇÃO DA ADUFF | Por Lara Abib

Peça Bonecas Quebradas foi apresentada no primeiro dia do 62° Conad Peça Bonecas Quebradas foi apresentada no primeiro dia do 62° Conad / Luiz Fernando Nabuco