Jul
31
2023

Marcha das Mulheres Negras no Rio: luta contra o racismo destaca memória e ancestralidade

Manifestação antirracista ocorreu em Copacabana no domingo (30); docentes, técnicas e estudantes da UFF participaram

Celebração da luta histórica por liberdade, exaltação à ancestralidade, defesa das reivindicações antirracistas que incluem políticas públicas que superem as desigualdades no Brasil. Esse foi o tom da IX Marcha das Mulheres Negras, realizada na Praia de Copacabana, área nobre do Rio de Janeiro, no último domingo (30). O ato marca a importância de 25 de julho, “Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha” e “Dia Nacional Tereza de Benguela” – liderança do Quilombo de Quariterê (MT).

No Rio de Janeiro, a atividade teve como mote “Mulheres negras unidas contra o racismo, contra todas as opressões, violências, e pelo bem viver”. Foi organizada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras e congregou diferentes organizações de mulheres negras, do movimento negro unificado e de movimentos inter-raciais. Contou, pela primeira vez, com a parceria da Ordem dos Advogados do Brasil, que reuniu sessenta advogadas pretas na marcha. 

Além delas, participaram outras trabalhadoras com diferentes ocupações, entre políticas, artistas, professoras, comerciantes e servidoras públicas. Estudantes; mulheres de axé e mulheres cristãs; quilombolas; mulheres do campo e da cidade; mulheres LGBTQIAPN+; moradoras de favelas e do asfalto também se fizeram presentes no evento. Professoras, técnicas e estudantes da UFF também estiveram na atividade, saudada pela Aduff-SSind. 

A marcha teve na linha de frente as mulheres griots (ou griôs), representando a sabedoria, a memória e a ancestralidade. Houve referências, ao longo da passeata, às personalidades que denunciaram o racismo no país, se empenhando pelo fim dele, entre elas Tia Ciata, Carolina Maria de Jesus, Maria Beatriz Nascimento, Lélia González, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Jurema Werneck – muitas lembradas em cartazes ou em falas do alto do carro de som que conduziu o grupo pela orla na Avenida Atlântica.  

“Copacabana é um lugar simbólico na cidade do Rio de Janeiro. Expressa o poder, a lógica escravocrata e racista que ainda perduram”, disse Rosi de Freitas – docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e ex-diretora do Andes-SN à imprensa da Aduff. “Nós, mulheres negras, construímos esse estado e esse país; somos a potência e incidimos na política”, complementou a docente.

Rosi de Freitas lembrou que o Andes-SN tem contribuído com a marcha e debatido a questão racial no âmbito das suas instâncias deliberativas, como Congressos e Conselhos (Conad), e do Grupo de Trabalho de Políticas de Classe, Questões Étnicorracias, Gênero e Diversidade Sexual. Para garantir a participação de mulheres pretas da periferia na IX edição do evento, o Sindicato Nacional viabilizou transporte para elas. 

“É muito importante que nosso sindicato tenha uma bandeira com a Sankofa - o pássaro que olha para o passado para construir o presente e o futuro, pois com racismo não haverá um projeto de universidade que seja verdadeiramente popular”, defendeu a professora.  

Racismo

A IX Marcha das Mulheres Negras aconteceu alguns dias após a divulgação da pesquisa  "Percepções Sobre o Racismo no Brasil", feito pelo IPEC, a pedido do Instituto de Referência Negra Peregum e do Projeto Seta, que ouviu duas mil pessoas em diversas regiões. Ela evidenciou que mais de 80% dos brasileiros afirmam viver em um país racista. Entretanto, apenas 11% admitem terem cometido práticas discriminatórias. Outros 51% já presenciaram alguma situação de racismo e 84% dos entrevistados compreendem que a abordagem policial é diferenciada quando se trata de pessoas negras e brancas.

“É resistência sempre. A gente vai morrer lutando para provar que podemos ser e estar aonde quisermos; eles têm que aprender que a mulher preta e o homem preto têm o direito de ir aonde quiser”, disse Elza Santos, moradora da Rocinha – a maior favela da América Latina, situada na zona sul do Rio de Janeiro.  

Para Elza, a luta antirracista tem um árduo caminho a percorrer para garantir mudança social mais efetiva para o povo preto, aquele apresenta os piores marcadores socioeconômicos no país, em diferentes pesquisas feitas ao longo dos anos.  

De acordo com Benny Briolly – mulher negra e transexual, atualmente vereadora em Niterói – a IX Marcha das Mulheres Negras representou mais uma vez, um momento de aquilombamento. “Mulheres negras carregam na pele um manto de coragem revolucionário. Vamos demarcar a importância histórica de nossas ocupações nos espaços de poder e na disputa de uma sociedade que entenda que o corpo da mulher preta está parindo a construção da jovem democracia brasileira”, disse a parlamentar. 

Marielle Franco, presente!

A socióloga e vereadora carioca Marielle Franco foi lembrada durante a IX Marcha das Mulheres Negras. Ela faria 44 anos dia 27 de julho deste ano, mas há cinco anos foi brutalmente assassinada, junto com o motorista Anderson Gomes, em uma emboscada na Zona Norte da cidade. 

Na semana em que houve avanços na investigação do crime político de repercussão internacional, as participantes na marcha também perguntavam: - quem mandou matar Marielle e por quê?

Mãe da jovem parlamentar, dona Marinete Silva exaltou o ato e o fato de as mulheres buscarem o protagonismo na sociedade brasileira. “Vamos assumir cada vez mais o nosso lugar de fala e o nosso poder. Julho das Pretas é para mostrar que podemos ir onde quisermos e for necessário”, afirmou ao lado da ex-governadora carioca Benedita da Silva, atualmente deputada federal; e da filha caçula, a jornalista Anielle Franco – atual Ministra da Igualdade Racial do Brasil.

“Marchamos por todas nós e por minha irmã. Não adianta mudar só a fotografia, temos que mudar as políticas públicas para que elas sejam eficazes para as mulheres negras nesse país”, defendeu a Ministra de Estado.

Da Redação da Aduff
Por Aline Pereira
Foto: Elisângela Leite/ Sintufrj