Abr
10
2026

Debate organizado pela Aduff resgata trajetória de Martha Rique Reis na UFF durante a ditadura empresarial-militar

Atividade, que foi realizada no Colégio Universitário Geraldo Reis/Coluni, integrou a Semana de Memória e Luta do Andes-SN, emocionou debatedores e familiares da homenageada. Martha Rique Reis é considerada uma mulher à frente do seu tempo, cujo legado se confunde com a história de Niterói

A trajetória de Martha Rique Reis (1929-2015), marcada pela atuação como técnica-administrativa e estudante na UFF e pela repressão durante a ditadura empresarial-militar brasileira, foi tema do debate “Memória e Reparação”, realizado no Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni), no dia último dia 1º de abril – data de "descomemoração" dos 62 anos do golpe de 1964. A iniciativa foi articulada no âmbito dos grupos de trabalho de História do Movimento Docente (GTHMD) e de Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) do sindicato de docentes da UFF, em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e o Sintuff. Contou com transmissão ao vivo, que pode ser acompanhada através do link: https://www.youtube.com/watch?v=N3OCl74yj3s&t=4s

A atividade, como explicou Maria Cecília Castro – professora do Coluni, presidente da Aduff e coordenadora do GTPCEGDS da seção sindical – recuperou a história de Martha, conectando sua experiência individual às violações de direitos ocorridas durante a ditadura. O debate integrou a Semana de Memória e de Lutas do Andes-SN, deliberação congressual, que se propôs ao resgate histórico sobre o período autoritário e à reflexão crítica sobre seus impactos em uma atualidade que flerta com o fascismo.

“Não podemos esquecer que a ditadura é cruel e mata. Em tempos de tanto conservadorismo, precisamos lembrar a importância da luta, da memória e da justiça”, disse Maria Cecília. “Precisamos de um país democrático de fato e que garanta o respeito à diversidade e às diferenças”, afirmou a presidente da Aduff.

Ela também explicou que o fato de o debate sobre a trajetória de Martha Rique Reis ter acontecido no Coluni não foi uma escolha aleatória. “Martha foi companheira de Geraldo Reis, que dá nome ao Coluni. Ele foi o fundador do Partido Socialista em Niterói”, revelou durante a mesa de abertura. “Quero ainda fazer um agradecimento especial à família de Martha, presente neste momento, que carrega e mantém viva sua memória através de diferentes gerações. Mais do que avó, mãe ou bisavó, ela foi uma mulher que representou e deu voz a muitas pessoas, impactando profundamente vidas em Niterói, no estado do Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Obrigada por dividirem-na conosco”, complementou a presente da Aduff.

Ela também lembrou que, em 2013, Martha compareceu à cerimônia de inauguração da biblioteca do Coluni e que doou cedeu livros para o espaço escolar.

Além de Cecília, a professora Natália Barbosa, docente e atual diretora do Coluni, também saudou a realização do debate no colégio que está completando 20 anos. “Tive a oportunidade de pesquisar sobre a história do Coluni e, durante esse momento, entrevistamos o Aquiles [Rique Reis, filho da Martha e do Geraldo Reis; músico do conjunto MPB 4]”, contou. Ela ressaltou que aquele momento era importante para a celebração da memória de resistência brasileira, que precisa ser conhecida pelas novas gerações. 

“Se existe uma invisibilização da luta no país, quando se trata [da luta] de mulheres ela é ainda maior”, disse Natalia ao se referir ao legado de Martha.

Durante a saudação aos participantes, Alexandro Florentino, coordenador do Sintuff, lembrou que golpe de 1964 foi financiado pelos Estados Unidos e por diversas empresas, tendo se caracterizado pela perseguição, prisão, sequestro, tortura e assassinato (com desaparecimento de corpos, inclusive) de diversas pessoas que se levantaram contra os horrores da ditadura. Lamentou que os algozes do passado, entre pessoas e instituições, não tenham sido responsabilizados por seus crimes até os dias de hoje.

“Não estive no tempo-espaço de Martha na UFF. Mas ela é uma colega técnica-administrativa e sua luta nos lembra sobre a necessidade de estarmos atentos o tempo todo”, disse.

Alexandro também mencionou que Martha foi acusada de subversão pelo regime ditatorial por realizar doação de alimentos e campanhas de solidariedade às pessoas em situação de vulnerabilidade econômica. “Os 62 anos podem parecer longínquos. Porém, precisamos ver o que ainda acontece hoje. Um exemplo é o do Padre Júlio Lancellotti [vítima de perseguição por acolher e alimentar a população pobre e marginalizada nas ruas de São Paulo]. Se não formos capazes de construir outro modelo de sociedade, esses horrores podem se repetir”, advertiu o coordenador do Sintuff.

Luta contra a violência e os apagamentos

Para o debate, a mesa foi composta por Joana D'Arc Ferraz, do Depto Sociologia e PPGS, diretora da Aduff, coordenadora do GTHMD da seção sindical e integrante da Comissão da Verdade do Andes-SN; Gabriel da Silva Rivas, historiador, bolsista PIBIC e mestrando do PPGS; Sérgio Aboud, docente de História/Coluni e integrantes do GTPCEGDS; Raldo Costa Filho, que trabalhou com Martha, na UFF, por anos; e Telmo Silva Hoelz, superintendente na Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), que foi fundada pela homenageada no evento.

“Se não fosse o sistema capitalista sustentar essa ditadura, ela não teria sobrevivido esse tempo todo”, disse Joana, lembrando que o período (1964-1985) contou com o apoio de empresários aos militares.

Para ela, a história desse período ainda é muito mal contada nas escolas. “Ditadura não é só a sequência dos militares [na presidência], o milagre econômico e as grandes obras faraônicas. A ditadura é muito mais do que isso”, complementou a professora apontando a tarefa de a sociedade refletir de forma crítica.

Emocionada pelo simbolismo daquele momento, quando os familiares de Martha Rique Reis estiveram presentes para participar da atividade, Joana explicou que a pesquisa histórica transcende o levantamento de documentos, pois se trata da vida de pessoas. Ela também criticou o fato de o Brasil ainda não ter “passado a limpo” esse momento porque não consegue quantificar as pessoas afetadas pelo autoritarismo. Segundo Joana, os dados disponíveis são incompletos e não refletem a dimensão da violência de Estado.

Como exemplo, a pesquisadora citou suas pesquisas na região de divisa entre Espírito Santo e Bahia, onde mais de 10 mil indígenas e quilombolas teriam sido afetados — entre desaparecimentos, prisões e outras violações — em conflitos relacionados à atuação da empresa Aracruz Celulose, atual Suzano Papel e Celulose.

Ela também comparou o caso brasileiro ao da Argentina, que reconhece cerca de 30 mil desaparecidos, ressaltando que, no Brasil, não há sequer uma estimativa consolidada. Para ilustrar a escala da repressão, mencionou que apenas nos primeiros seis meses de funcionamento do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) foram abertos cerca de 10 mil inquéritos policiais militares.

Para Joana, esses dados evidenciam a necessidade de aprofundar as investigações e ampliar o acesso à memória histórica sobre o período. Defendeu que ao se resgatar o percurso de Martha Rique Reis, denunciando as perseguições que ela sofreu, o sindicato também reafirma a importância da luta em prol dos princípios democráticos.

À imprensa da Aduff, a professora afirmou que o evento reforça a relevância da pesquisa nas universidades e seu impacto para a sociedade como um todo. Ela defendeu a criação de uma Comissão da Verdade na UFF e destacou que a iniciativa evidencia, mais uma vez, a urgência de tornar públicos os arquivos da ditadura, levando-os à sociedade para que a memória se torne viva e ultrapasse os limites da instituição de ensino.

Em seguida, Gabriel Rivas, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, historiador pela UFF e graduando em Ciências Sociais pela mesma instituição, comentou sobre a pesquisa que desenvolve no âmbito do LACE – Laboratório de Agenciamentos Cotidianos e Experiências, coordenado pela professora Joana D’Arc Ferraz. 

Intitulado “Mecanismos de repressão e vigilância da ditadura empresarial-militar brasileira no âmbito da UFF e o perfil dos atingidos”, o estudo dialoga com debates já consolidados sobre os sistemas de informação e repressão no Brasil, como a ASI (Assessoria de Segurança e Informações) e o SNI (Serviço Nacional de Informações), especialmente no período da ditadura. Após o golpe, esse sistema nacional de informações passou por um processo de reorganização para atender às demandas do regime autoritário.

Um dos nossos objetivos é compreender como esses mecanismos de repressão e vigilância se expandiram e se enraizaram no cotidiano social, destacando a criação e o desdobramento dessas instâncias no âmbito do Estado brasileiro. “A gente visualiza, em 1967, a criação do DSI (Divisão de Segurança e Informações), que vai ser uma subdivisão presente em cada um dos ministérios no território nacional, inclusive no Ministério da Educação e Cultura (MEC). Isso vai se desdobrando, entre 1970 e 1971, nas assessorias especiais de segurança e informação (AESI), que vão estar nas autarquias, nas fundações públicas, nas empresas públicas e nas universidades”, falou.

Para o orientando da professora Joana, esses mecanismos de repressão e vigilância impactavam concretamente o dia a dia universitário, quando foi possível identificar práticas repressivas como fichamentos, censura e monitoramento da comunidade. “A gente consegue identificar o passo a passo nessas fichas policiais, que eram fornecidas para órgãos como o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), além da censura bibliográfica e do monitoramento de professores contrários ao regime”, afirmou.

Segundo Gabriel, a partir do levantamento documental, até o momento, foram identificados mais de 400 nomes de pessoas monitoradas pelos órgãos de repressão no período. “Depois da consulta aos arquivos, o trabalho mais importante é buscar essas pessoas para entrevistas e obter relatos mais aprofundados”, explicou.

De acordo com ele, as entrevistas são intensas e chegam a ultrapassar quatro horas, permitindo uma análise mais detalhada do cotidiano daquela época. O pesquisador também destacou descobertas relevantes, como a identificação de um professor do Instituto de Geociências da UFF, assassinado pela ditadura, mas sem reconhecimento oficial do crime. A investigação acadêmica possibilitou o contato com familiares e o acesso a documentos inéditos, aos quais eles nunca haviam tido acesso. “E um dos nomes que chama a nossa atenção, entre os documentos, é o de Martha Rique de Oliveira Reis, denotando o quão importante ela foi naquele momento”, disse.

Com uma trajetória marcada pelo reconhecimento público no início dos anos 1960, quando atuava como assistente social e pedagoga, Martha era reconhecida pela criação da Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), que atuou na linha de frente no atendimento às vítimas do incêndio do Gran Circo, tragédia ocorrida em Niterói, em 1961.

No entanto, como contou Gabriel, após o golpe de 1964, seu nome desapareceu das matérias jornalísticas e passou a figurar nos arquivos dos órgãos de repressão, classificada como subversiva. Com o fim da ditadura, sua memória é resgatada, e ela volta a ser reconhecida como referência na sociedade fluminense, retomando sua atuação social, como na fundação do Grupo Pela Vidda (entidade de apoio a pessoas vivendo com HIV/Aids), em 1991.

Gabriel destacou que a ditadura produziu interrupções brutais nas trajetórias individuais de muitas pessoas, motivadas não apenas por posicionamentos políticos formais, mas também por conflitos pessoais com indivíduos ligados ao regime. "Não era necessário ser filiado a partidos ou assumir publicamente posições de esquerda para se tornar alvo: bastava uma desavença para que alguém fosse monitorado, punido ou até assassinado", falou.

O pesquisador ressaltou ainda que o estudo segue em andamento e está aberto à colaboração de interessados em contribuir com informações e investigações. E que entre o horizonte de expectativas do LACE, ao “montar esse quebra-cabeça”, está a elaboração de um relatório que possa subsidiar a criação de uma futura Comissão da Memória, Verdade, Justiça e Reparação da UFF.

Outros olhares ternos sobre a Martha

Colega de trabalho da Martha, Raldo Costa Filho, professor da UFF, afirmou que falar sobre o tema é difícil e que estava emocionado desde o início do encontro. “Eu queria adiantar que é muito difícil falar. Tô chorando desde que cheguei aqui”, disse.

Ele contou que seu vínculo com ela vem de antes mesmo de seu nascimento, por meio da relação dela com seu pai, a quem destacou pela dedicação ao trabalho social com crianças em situação de rua. Segundo ele, o pai dirigia uma instituição que acolhia jovens de vulnerabilidade, contribuindo para transformar suas trajetórias. “Eu pude acompanhar esse trabalho e ver meninos que cresceram, se formaram e hoje são profissionais”, relatou.

A aproximação entre Raldo e Martha se intensificou quando ele já atuava como docente na UFF, especialmente no contexto da epidemia de Aids, destacando a sensibilidade e o compromisso dela no acolhimento aos pacientes do Grupo Pela Vidda, em Niterói. Ele mencionou a criação de projetos desenvolvidos em parceria com a UFF, voltados ao atendimento de mães e filhos soropositivos. “Era um trabalho magnífico, lindo. A Marta criava e articulava essas ações com muito cuidado”, afirmou, lembrando iniciativas como o projeto voltado à atenção integral de crianças e famílias afetadas pelo HIV/Aids.

Para Raldo, muitas iniciativas posteriores se inspiraram diretamente nesse trabalho. “Ela foi fundadora e iniciadora. O que veio depois foi, de certa forma, é uma continuidade do que ela já fazia”, disse.

Ele fez duras críticas a um assessor de segurança ligado à reitoria à época, a quem responsabiliza por perseguições durante a ditadura. Em tom emocionado, afirmou: “Eu faço questão de dizer o nome dele […] era um perverso, um psicopata. Quero que esteja queimando eternamente, porque era uma peste esse homem”.

Segundo ele, esse agente perseguia Martha de forma constante. “Ele era capaz de acompanhar a Marta sem que a gente soubesse, mas estava sempre monitorando”, relatou.

O professor também contou que acabou sendo alvo das mesmas práticas, sendo enquadrado como “subversivo” com base em informações falsas. “Ele inventava coisas, me meteu no meio disso tudo”, disse. Raldo lembrou ainda episódios em que foi acionado por autoridades, como em uma ocasião envolvendo a Polícia Federal, após denúncias de uma suposta manifestação no Caio Martins, que, segundo ele, não passavam de invenções para justificar a repressão e a perseguição política.

Raldo apontou a força de Martha e também a sensibilidade para acompanhar as demandas sociais. “Foi ela quem me chamou atenção para a existência das pessoas transexuais e que as trouxe para o atendimento junto ao Serviço de Psicologia Aplicada da UFF”, afirmou.

Também emocionado, Telmo Silva Hoelz, trabalhador da AFR há mais de 45 anos, falou que teve pouco tempo de convivência com Martha. "Entretanto, ela foi muito marcante e eu a imagino reagindo a esse momento aqui. Deve estar morrendo de rir, porque aqui tem emoção, alegria e memória”, falou.

Ao relembrar a trajetória de Martha, abordou sua atuação à frente da Associação Fluminense de Reabilitação. Segundo ele, houve uma ruptura que a afastou da instituição e causou grande sofrimento. “Eu conversei com ela sobre isso”, disse.

Superintendente da AFR, Telmo contou ainda que se reaproximou de Martha após ler no jornal sobre uma homenagem que ela receberia na Câmara de Vereadores de Niterói, em reconhecimento ao seu trabalho no atendimento a pessoas soropositivas, ocasião em que esteve presente. "Consegui convencê-la a voltar à AFR, que, para ele, é a materialização da Martha Reis. “Ela fez uma casa que a gente tem orgulho enorme”, disse.

Ele mencionou a continuidade e o alcance do trabalho iniciado por Martha, ressaltando seu impacto social que alcança pacientes de 65 municípios do estado do Rio de Janeiro, além da oferta de equipamentos como cadeiras de rodas e muletas. “Essa semente prosperou e hoje atende mais de duas mil pessoas, das quais mil pessoas são predominantemente atendidas pelo SUS”, afirmou.

Em tom afetuoso, Telmo reforçou o compromisso com a continuidade desse legado. “O trabalho que realizamos lá é emocionante, assim como foi o da Martha”, disse, convidando os presentes a visitarem a AFR, que está localizada na Rua Lopes Trovão, nº 301, no bairro de Icaraí.

Martha e o GTPGEDS da Aduff

Primeiro diretor do Coluni e professor de História na instituição, o professor Sérgio Aboud destacou que sua trajetória militante se entrelaça com diferentes frentes de atuação política e social, incluindo o GTPGEDS (Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual) da Aduff, do qual é participante ativo. Segundo ele, o espaço reúne debates e ações fundamentais para a defesa de direitos e para o enfrentamento das desigualdades.

Ao relembrar sua aproximação com o movimento, Sérgio relatou que chegou à militância no início dos anos 1990, a partir do contato com o Grupo Pela Vidda e, posteriormente, com organizações como o Arco-Íris. Foi nesse contexto que conheceu Martha, cuja atuação se conectava diretamente com as pautas que hoje estruturam o GTPGEDS, especialmente na defesa da vida, no acolhimento e na luta por direitos de populações historicamente vulnerabilizadas, como a comunidade LGBTQIA+.

Nesse sentido, ele afirmou que o resgate dessa memória da atuação de Martha reforça a importância da articulação entre a pesquisa histórica, militância de pessoas e de coletivos e ação sindical na construção de uma universidade e de uma sociedade mais justas.

“Família é outro legado importante de Martha”

Acima, a professora Joana está ladeada pela família de Martha Rique Reis, que compareceu ao evento organizado pela Aduff, em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e o Sintuff. 


“Ela tinha o maior orgulho de dizer que foi na casa dela que o MPB4 começou e que ela e o Geraldo ajudaram a convencer os pais dos outros integrantes a deixá-los seguir na música”, afirmou Nilza Maria Godoy Rique Reis, nora de Martha e esposa de Aquiles, que veio de São Paulo especialmente para participar do evento.

Nilza destacou a relação afetiva que construiu com Martha ao longo dos anos, cuja trajetória pode ser compreendida a partir de duas dimensões marcantes: a vida como companheira de Geraldo e sua atuação intensa na vida pública da cidade de Niterói.

Ela ressaltou ainda a proximidade que teve com a sogra, com quem desenvolveu uma relação que ia além dos laços familiares. “Tive o prazer de ser não só nora, mas amiga dela. Morro de saudade das nossas conversas infindáveis”, disse.

Também afirmou que muitas das histórias sobre o período da ditadura foram conhecidas por meio desses diálogos, sempre carregados de emoção e admiração. “Ouvi muita coisa com orgulho, carinho e paixão”, afirmou. Ressaltou sua gratidão pela convivência e destacou outro aspecto fundamental do legado de Martha: a construção de sua família.

Segundo Nilza, o seu marido Aquiles representa um dos principais legados de Martha, marcado pela resistência por meio da arte. “Ele sempre usou a arte como resistência, e o MPB4 segue até hoje, há mais de 60 anos, cantando e resistindo”, falou.

Ela também destacou a continuidade desse legado nas novas gerações da família, presentes em diferentes áreas profissionais. “Aquiles teve cinco filhos. O mais velho, Pedro, seguiu a carreira musical, assim como o pai. Gabriel atua como jornalista, enquanto Letícia é educadora. Lucas trabalha como produtor cultural, e Isabel é designer gráfica”, contou. “Martha foi uma mulher à frente do seu tempo e nós temos um legado e uma responsabilidade”, complementou.

Enteado de Nilza, Gabriel contou que sua avó Martha era “baixinha, um metro e 50 e poucos, falava baixinho e devagar. Era muito gostosa de abraçar”.

Ele revelou ainda episódios ligados ao período da ditadura, narrados por Martha, especialmente os que ela viveu em 1964, quando ela buscava notícias do marido, Geraldo, e do filho, Aquiles.

O neto também mencionou o contraste entre a imagem pública de Martha e a figura familiar que conhecia em casa. “Para vocês ela é uma coisa, pra mim ela era outra. Lembro da minha avó com o livro do Ziraldo, com gelatina cor-de-rosa, uma avó carinhosa”, disse.

Para Gabriel, a memória familiar e a memória política se entrelaçam, compondo a complexidade da trajetória de Martha, reafirmando o seu orgulho de pertencer à família Rique Reis. “A gente teve uma sorte imensa de ser parente da Dona Marta. Ela era foda”, concluiu.

Da Redação da Aduff
Por Aline Pereira
Foto: Alexandre Velden

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