"Qual feminismo? Para quem e com quem?" foi o tema da primeira mesa de debates do I Encontro de Mulheres da Universidade Federal Fluminense, evento organizado pela Aduff-SSind com o apoio da Regional Rio do Andes-SN. Contou com a participação de Glaucia Alves (docente da Escola de Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e de Rayssa Ruas (advogada popular e doutoranda em Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Uerj).
Gláucia leu o poema "Conselhos para a mulher forte", da nicaraguense Gioconda Belli, e em seguida afirmou que o Brasil é o quinto país mais violento contra as mulheres, com altos indicadores de violência doméstica, obstétrica e contra pessoas LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais). Lembrou que a formação brasileira, colonial e com base na escravidão africana, assim como a abolição tardia desse sistema econômico no país impactaram a vida de mulheres negras com consequências até a atualidade.
De acordo com a docente da UFRJ, é preciso considerar que a luta feminista existe ao longo dos séculos, sofre avanços e recuos diante da própria exigência do desenvolvimento do capitalismo. A pesquisadora, que defende o feminismo pelo viés marxista, explica que é preciso pensá-lo no enfrentamento ao sistema capitalista e ao patriarcado, já que os dois estão interligados inferem no controle do corpo das mulheres. "Não tem como a gente pensar nem o racismo, o feminismo e o capacitismo fora de um escopo tanto produtivo quanto ético-político que engendra e consolida a sociedade capitalista", explicou.
Glaucia Alves também afirmou que o feminismo questiona e enfrenta a desigualdade entre homens e mulheres, diante o poder masculino como eixo norteador das relações sociais, políticas e econômicas. Não é, portanto, um movimento homogêneo, sendo impossível falar em um único feminismo, sobretudo porque ele também reflete as contradições sociais e algumas disputas envolvendo as pautas subjetivas.
Como pautas centrais da luta feminista, conforme a palestrante, estão a justiça reprodutiva; socialização do trabalho reprodutivo; condições dignas de trabalho em todas as esferas; sustentabilidade da vida contra a destruição do meio ambiente; articulação entre sindicalismo, justiça migratória e políticas públicas.
A docente também advertiu para a necessidade de se problematizar a sobrecarga de trabalho das mulheres principalmente porque elas lideram o trabalho em ambiente doméstico. Em um ambiente universitário e entre casal de docentes, são os homens que se colocam como os mais produtivos academicamente em detrimento das mulheres.
Feminismo negro
A advogada Rayssa Ruas, que é doutoranda em Direito na Uerj, apresentou considerações sobre o feminismo negro que, historicamente, está diretamente relacionado à diáspora africana e às estratégias de sobrevivência a partir da dimensão da dor e da violência que atingiu as mulheres negras.
De acordo com ela, o feminismo negro é muito antigo e ultrapassa o conceito de interseccionalidade - termo que se popularizou a partir do pensamento da advogada estadunidense Kimberlé Crenshaw. "É sobre recuperar, preservar e refazer tradições que são formas de reprodução social, da vida, dos nossos corpos. Temos reduzido a potência do feminismo negro ao feminismo interseccional estadunidense, que é localizado em um contexto histórico específico. Temos visto um movimento importante no Brasil de tradução dessas obras, mas que muitas vezes apaga o feminismo negro de diáspora na história brasileira", disse.
Rayssa defendeu que a construção histórica da unidade da classe trabalhadora em torno das categorias de gênero, raça e classe, ultrapassando a fragmentação de pensamentos. "Se não conseguirmos avançar no mínimo das pautas que garantam nossa sobrevivência imediata, será difícil pautar a transformação da realidade", afirmou.
Ela criticou a sobrecarga da mulher negra como aquela a quem compete o papel de ser "guerreira" e a "fortaleza", quando muitas estão adoecidas emocionalmente e fisicamente. Disse ainda que o "letramento racial" da sociedade não é missão apenas dessas mulheres, que têm encarado tal tarefa de forma solitária; mas que ele também compete às brancas, que foram igualmente racializadas e estão confortáveis diante dos privilégios da branquitude.
Condenou ainda o racismo no ambiente institucional e a acadêmico, explicitando como as mulheres negras se esforçam ainda mais para terem a fala e o pensamento legitimados pelos pares. "Todo debate de genocídio negro está na formação da constituição da política social. Precisamos nos formar coletivamente, nos dedicar ao estudo da raça", disse.
Para ela, a práxis negra está diretamente ligada à prática quilombista. "É de unidade entre as raças - onde ela não se impõe da forma que se impunha do lado de fora; lugar onde negros, brancos e indígenas construíram uma alternativa ao capitalismo", afirmou, lembrando que o quilombismo ultrapassou séculos e se coloca de forma concreta em espaços periféricos ainda hoje.
#Movimento Elas Ficam
Raysa Ruas criticou a tentativa de cassação por setores bolsonaristas das deputadas federais Sâmia Bomfim (SP), Célia Xakriabá (MG), Talíria Petrone (RJ), Fernanda Melchionna (RS), Érika Kokay (DF) e Juliana Cardoso (SP), após elas se manifestaram contrárias à aprovação do Marco Temporal pelo Legislativo.
A palestrante comentou que o episódio de perseguição às mulheres legitimamente eleitas e que ocupam espaços de poder e decisão é reflexo de uma sociedade ainda muito misógina, racista e lgbtfóbica.
"É o lugar da dor que nos empurra para a luta, precisamos entender que dor é essa", afirmou ao mencionar o conceito de Dororidade.
Da Redação da Aduff
Por Aline Pereira
Foto: Luiz Fernando Nabuco







