"Demonstramos a força da solidariedade internacionalista diante dessa ameaça à soberania e à autodeterminação dos povos na América Latina", disse Bianca Novaes, ex-diretora da Aduff e professora da UFF em Volta Redonda, sobre o ato realizado nesta segunda-feira, 5 de janeiro, na Cinelândia.
Com o mote “Fora Trump – Venezuela se respeita!”, o protesto reuniu pessoas de diferentes gerações, universidades, movimentos sindicais e movimentos populares para denunciar o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorrido na madrugada de 3 de janeiro. A ação militar estadunidense resultou no sequestro e na prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados à América do Norte para julgamento, além da morte de mais de 80 pessoas.
Os Estados Unidos afirmam que Maduro e a primeira-dama estariam envolvidos no tráfico internacional de drogas, rotulando-os como “narcoterroristas”. Contudo, pouco depois da ofensiva, o presidente Donald Trump explicitou que a real intenção do governo norte-americano é o controle das reservas de petróleo da Venezuela, que ultrapassam 300 bilhões de toneladas e constituem as maiores do planeta.
"Uma ameaça que nos atinge também, mostrando a necessidade de estarmos nas ruas para exigir posturas mais firmes por parte do governo brasileiro em prol da solidariedade. Creio que este tenha sido o primeiro de outros atos que se farão necessários para barrar essa ofensiva imperialista", avaliou Bianca.
Para ela, foi importante ver a Aduff presente na manifestação em solidariedade ao povo venezuelano e em defesa da soberania latino-americana – o que foi reforçado pelo colega João Claudino Tavares, docente da UFF em Rio das Ostras, ex-dirigente do sindicato e atual 2º vice-presidente da Regional Rio de Janeiro do Andes-SN.
João Claudino também destacou a importância da rápida organização do ato, convocado pela Frente de Esquerda Anti-Imperialista em Solidariedade à Venezuela, pela Frente Povo Sem Medo, pela Frente Brasil Popular e por outras entidades dos movimentos sociais. A mobilização ocorreu pouco mais de 48 horas após os acontecimentos internacionais, em um período de férias e de retorno do recesso de final de ano.
"É preciso destacar a participação significativa da militância da Aduff-SSind. Foi muito bacana encontrar grandes companheiros e companheiras do sindicato nessa mobilização", afirmou o professor, citando a presença de Ângela Tamberlini (Faculdade de Educação); Bianca Novaes; Claudia March (Instituto de Saúde Coletiva); Eblin Farage (Escola de Serviço Social); Gelta Xavier (Educação); José Antonio de Souza (Instituto de Física); Maria Lídia Silveira (Escola de Serviço Social); Marina Tedesco (Cinema); Virginia Fontes (Instituto de História); Waldyr Castro (Instituto de Educação Física), entre outros e outras docentes da UFF.
De acordo com Claudino, a crise do capitalismo, especialmente em sua expressão imperialista, se esgota nos discursos de democracia e paz mundial. "Diante disso, os Estados Unidos, em sua própria crise, voltam a buscar recursos estratégicos, sendo o petróleo um dos principais objetivos dessa ação!, afirmou.
Segundo o professor, essa disputa tem implicações geopolíticas graves. "O imperialismo busca se reposicionar globalmente, tal como fez após a Segunda Guerra Mundial, quando estabeleceu trincheiras estratégicas, como em Cuba. Hoje, a Venezuela se apresenta como um novo espaço dessa disputa, e o controle do país representa, na prática, uma tentativa de fixar uma trincheira na América Latina", explicou.
Claudino alertou que processos semelhantes ao que ocorre na Venezuela podem se repetir em qualquer país da região, incluindo o Brasil. Além de Trump já ter ameaçado a Colômbia, a Argentina demonstra alinhamento favorável aos interesses estadunidenses – em consonância com o projeto de poder político e econômico de Washington na América Latina. "Por isso, é fundamental a mobilização popular em defesa da nossa soberania", reafirmou.
Waldyr Castro, que também é ex-dirigente da Aduff, disse ter se impressionado também com a rapidez com que o ato foi organizado, com o número de organizações que compuseram o protesto e quantidade de pessoas presentes. "Ao fazer essa leitura baseado no método democrático e participativo utilizado pelas organizações de esquerda para tomar decisões consensuais, a justificativa que encontro é a indignação causada pelas arbitrariedades cometidas pelo governo do Estados Unidos e a série de ameaças que as últimas ações realizadas pelo governo Trump significam para toda a América Latina", concluiu o professor.
"O debate é maior do que gostar ou não do Maduro: é em defesa de toda a América Latina"
Para Marina Tedesco, professora do curso de Cinema e ex-presidente da Aduff, a mobilização desta segunda-feira foi fundamental, pois demonstrou rapidamente a insatisfação com a invasão imperialista na América Latina, especialmente na Venezuela.
"Eles sequestraram Nicolás Maduro e Cilia Flores dentro do território venezuelano. Os motivos estão totalmente claros: é pelo petróleo, e pronto. Isso coloca a relação imperialista dos Estados Unidos com a América Latina em um novo momento, que considero muito perigoso, na medida em que Trump ameaça a Colômbia, o México e Cuba. Ele deixou claro que onde houver recursos estratégicos e os governos eleitos não os disponibilizarem, haverá intervenção norte-americana", afirmou.
Para a docente, há um risco real para o Brasil, mesmo que o país não tenha sido citado diretamente nas falas imediatas de Trump após o ataque à Venezuela, já que o território brasileiro é rico em recursos naturais e a Amazônia é estratégica na geopolítica regional.
"É muito importante explicitar que, independentemente da posição sobre o chavismo e Maduro, trata-se, em primeiro momento, de uma defesa da Venezuela e, de forma mais ampla, de toda a América Latina", enfatizou.
"No ato, havia pessoas a favor e contra Maduro, mas todas entendiam que o debate é maior do que isso: como o presidente dos Estados Unidos acha que tem o direito de sequestrar um presidente dentro de um território nacional para ter acesso aos recursos naturais daquele país? É contra isso que devemos nos posicionar de forma firme e veemente", concluiu Marina.
Eblin Farage, docente da Escola de Serviço Social e ex-presidente da Aduff e do Andes-SN, lembra que o ato não aconteceu somente no Rio de Janeiro, mas em outras capitais brasileiras. Além disso, nos últimos dias, outros países da América Latina e da Europa também realizaram manifestações em apoio à Venezuela. No próprio Estados Unidos ocorreram protestos contra as ações imperialistas de Donald Trump.
"O ato desta segunda-feira foi um momento super importante porque demarcou nossa posição contra todo e qualquer tipo de ataque que viola a soberania dos povos na América Latina", disse a docente. "É preciso refletir o que significa essa invasão norte-americana na Venezuela e o sequestro de um presidente dentro de seu próprio país em nosso continente. Em 2026, teremos eleições no Brasil. E começamos o ano com uma mensagem muito ruim da política imperialista que os Estados Unidos desenvolvem e tentam impor na América Latina", complementou.
Da Redação da Aduff







