Ago
03
2023

“Habitar a Universidade como professora preta também é pensar processos de aquilombamento com estudantes negros”

Professora do Departamento de Serviço Social da UFF de Campos dos Goytacazes, Juliana Lobo destaca luta antirracista na universidade e a importância da Aduff dar visibilidade e construir as atividades do Julho das Pretas 

“Dar visibilidade às mulheres negras que têm filiação sindical e estão na universidade é importante, sobretudo, para mostrar para outras mulheres negras a possibilidade delas estarem ou lograrem esses espaços, lembrando que são poucas de nós que conseguimos estar nele. Por mais que a formação docente se dê, majoritariamente, por mulheres, a maioria das mulheres que estão na universidade são de mulheres brancas. Trazer esse debate para a Universidade é fundamental para fomentar a discussão do quanto o racismo faz com quem muitas mulheres negras não consigam sequer chegar até aqui”, analisa Juliana Lobo, professora do Departamento de Serviço Social da UFF de Campos dos Goytacazes.

A docente conta que ser professora de uma universidade pública federal, enquanto uma mulher negra e uma mulher negra mãe, “é de uma honra muito grande” e, ao mesmo tempo, “de uma luta constante no combate ao racismo”, já que o cotidiano acende dores sofridas até o dia de hoje, sobretudo ao ressaltar que a universidade ainda não é um lugar seguro para pessoas pretas. Também por isso, é um espaço cotidiano de luta, de enfrentamento e de denúncia ao racismo.

“Historicamente esse espaço foi pensado e construído para a classe burguesa, para a classe mais alta. E a classe mais alta é branca. Muitos de nós fomos vistos na universidade, em sua maioria, na figura da tia da limpeza, na pessoa da cantina, trabalhando em papéis subalternos. Não que não sejam papéis importantes, mas é onde a maioria de nós está nesses espaços. Habitar a universidade como professora preta é importante até para pensar processos de aquilombamento, de cuidado, de aproximação com estudantes pretos. E também é muito desafiador porque a todo o momento somos postos a prova, a todo o momento tentam afirmar que nosso lugar não é esse”, reforça. 

Professora da UFF de Campos dos Goytacazes, Juliana pontua que a cidade é extremamente conservadora e racista. No século XIX, Campos se destacava no cenário escravocrata pela quantidade de mão-de-obra escravizada utilizada nas fazendas de café e engenhos de cana-de-açúcar. O município chegou a ter o maior número de pessoas escravizadas da província do Rio de Janeiro. No pós-Abolição, a população negra seguiu abandonada e desassistida.

“A cidade é de maioria negra, mas poucos estão em espaços, digamos, de visibilidade. A maioria está em funções subalternas, mal remuneradas ou no desemprego. Pensar Campos dos Goytacazes e pensar o racismo é um pouco do que venho tentando fazer junto do grupo de Extensão que eu coordeno, a Agenda Antirracista. A gente faz ações dentro da UFF e também fora da universidade, como maneira de enfrentamento ao racismo, pensando a construção de uma sociedade e de uma cidade antirracista”, afirma.

Natural do Rio de Janeiro, a docente destaca que a luta antirracista ganhou ainda mais centralidade em sua vida desde que chegou a Campos dos Goytacazes e, sobretudo, quando chegou à UFF.

“Entendi a possibilidade de enfrentamento ao racismo, em especial para fortalecer os alunos, as alunas e alunes negras, negros e negres como caminho de aquilombamento, de empoderamento, de cuidar desses mais novos. A gente torce e espera que  eles também ocupem a universidade através de seus quadros, através do concurso público. Por isso é importante pensar o quanto a luta antirracista precisa ser de todos, precisa ser da população negra mas sobretudo da população branca”, finaliza.

Da Redação da Aduff | por Lara Abib

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