Com o mote “Mulheres Negras rumo a Brasília: contra o racismo, por justiça e o bem viver!”, a 11° edição da Marcha Estadual das Mulheres Negras do Rio de Janeiro percorreu a Praia de Copacabana, no último domingo (27), afirmando-se como um espaço de “aquilombamento” e como um “mosaico de pretas potentes que não fogem da luta”.
“O racismo não vai nos calar! O machismo não vai nos calar! A miséria não vai nos calar! A lgbtfobia não vai nos calar! O imperialismo e as ameaças estadunidenses não vão nos calar! Não vamos permitir sermos intimidadas!”, foi o recado dado, do carro de som, no início do ato, por Clátia Vieira, uma das coordenadoras do Fórum Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, responsável pela construção do ato.
Realizada para marcar o encerramento da agenda política coletiva do Julho das Pretas no Estado, referente ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela (25 de julho), a marcha contou com a participação de mulheres negras de 35 municípios do Estado, de acordo com a organização.
Assistente social formada pela UFF e moradora de São Gonçalo, Luciléia de Souza era uma delas. Acompanhada, pela primeira vez, da filha Dandara Policarpo, de 18 anos, ela falou da emoção de estar com a cria na marcha.
“Para mim como mãe, ter a minha filha hoje comigo aqui, na primeira experiência dela na marcha, é muito emocionante. Como mulher negra que batalhou para criá-la sozinha, vê-la nos movimentos sociais, militando por igualdade, por justiça e pelo direito de todas as mulheres é um orgulho. Semana passada ela estava no Congresso da UNE, é caloura do curso de Produção Cultural da UFF. Também fico feliz de reencontrar mulheres que lutaram comigo por todos esses anos, mãe solteiras pretas marchando e lutando por direitos”, disse.
Marielle, presente!
Realizada sempre no último domingo do mês de julho, neste ano, a marcha também coincidiu com o dia do aniversário de Marielle Franco. Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, participou do ato, ao lado da mãe Marinete e da sobrinha Luyara. “No dia de hoje, minha mãe completaria 46 anos e boa parte desse tempo foi lutando pelo que nos une aqui hoje. O Julho Negro intensifica nosso trabalho e nosso alcance, na luta por reparação e pelo bem viver. Por isso, é preciso que se diga: não há democracia sem mulheres negras e não há projeto político de país sem mulheres negras”, afirmou Luyara Franco.
Um milhão de mulheres negras em Brasília!
A manifestação em Copacabana também integra a preparação para a 2° Marcha Nacional das Mulheres Negras, que ocorrerá no dia 25 de novembro, em Brasília (DF). Se na primeira edição, em 2015, cerca de 100 mil mulheres negras marcharam contra o racismo, a violência e pelo bem viver, dez anos depois, a 2° Marcha Nacional quer levar 1 milhão de mulheres negras a Brasília.
“Nós vamos chegar para ocupar Brasília com a força da ancestralidade, a força que move o gueto, move a viela, a favela, que move os terreiros e o nosso axé. É com essa força que a gente vai chegar lá. Somos nós, mulheres negras, o pilar dos nossos municípios, o pilar desse Brasil. Um milhão de mulheres negras em Brasília!”, convocou, na marcha, a primeira mulher trans eleita vereadora de Niterói, Benny Briolly (PSOL).
Presente no ato, a professora aposentada da UFF e ex-presidente da Aduff, Sônia Lúcio Rodrigues de Lima destacou que a participação da categoria docente na 2° Marcha Nacional das Mulheres Negras é uma deliberação congressual do Andes-SN.
“Há uma particularidade do contexto em que a 1° marcha nacional foi gestada, que é o início de uma situação defensiva que se abre com o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Sem aderir a uma linha abstencionista em relação ao retrocesso que significava este processo, o ato foi uma das últimas grandes manifestações da esquerda que dialogou com o governo petista, a partir da reivindicação de uma agenda de direitos. Na carta entregue em mãos a então ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Nilma Lino Gomes, as reivindicações iam desde direitos trabalhistas básicos, passando pela denúncia das múltiplas dimensões da violência racial e de gênero, até debates mais estruturais pautados como medidas de reparação histórica ao povo negro. Dez anos depois, cabe aos movimentos sociais e sindicais apoiarem essa iniciativa e contribuírem com a sua realização”, defendeu.
Abolir a escala 6x1 é lutar pelo bem viver!
Durante todo o trajeto da marcha, também era possível encontrar urnas espalhadas e votar no “Plebiscito Popular por um Brasil mais justo”, iniciativa que pretende ouvir a população brasileira sobre o fim da escala 6x1 (seis dias trabalhados para um de folga), a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e taxação dos super-ricos.
Talita, 29 anos, moradora de Nova Iguaçu e integrante do Movimento Nacional Quilombo Novembro Negro (Monaqnne) participava da organização de uma das banquinhas de votação. Para ela, a escala 6×1 é um resquício da escravidão e afeta mais a população negra, “colocando fim na qualidade de vida de várias mulheres negras e da população preta, em geral”.
No ato, ela defendeu a organização popular para impulsionar a luta pelo fim da escala 6x1, pautada pelo plebiscito. “Pôr fim à escala 6x1 representa avançar na luta pelo bem viver. É uma jornada que vem nos matando”, afirmou.
Aos 93 anos, a pioneira da luta das trabalhadoras domésticas no Estado do Rio de Janeiro, Nair Jane de Castro Lima, também estava na Marcha. Empregada doméstica desde os nove anos de idade, Nair Jane foi presidente da Associação Profissional das Empregadas Domésticas e do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos, além de uma das fundadoras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Rio.
“Não gosto de vir para ficar sentada, quero caminhar! É importante para dar ânimo, para continuar, não posso parar não. A mulher, no geral, tem que se valorizar muito, a mulher negra mais ainda, tem sempre que afirmar: eu sou negra! Tenho muito orgulho da minha raça e da minha origem”, disse.
Da Redação da Aduff | por Lara Abib







