Jan
23
2021

Abstenção recorde corrobora com campanha que previu exclusão em manter Enem na pandemia

Campanha defendia adiamento das provas até que houvesse segurança sanitária no país

O Brasil já ultrapassava os 200 mil mortos pela pandemia da covid-19 e, nas redes sociais, pessoas se manifestavam com a hasthag #AdiaEnem, pedindo ao governo federal a suspensão da prova de seleção que garante uma vaga à Universidade Pública no país. Não adiantou. A primeira etapa do Exame Nacional do Ensino Médio, envolvendo as provas de redação e de Linguagens e Ciências Humanas, foi realizada no último domingo 17 e alcançou a maior abstenção da história. Entre os mais de 5,6 milhões de inscritos, 51,5% não participaram do exame, cuja segunda etapa está prevista para 24 de janeiro.

Nas redes sociais, candidatos relataram que houve aglomeração em alguns locais de prova e que foram impedidos de fazer o exame por causa da superlotação, especialmente no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul. Segundo especialistas, a taxa de abstenção também está diretamente relacionada à alta contaminação pelo novo coronavírus no país e ao fato de o Ministério da Educação ter se recusado a adiar as provas pela segunda vez, mesmo diante das circunstâncias que assolam ao país.

Inicialmente, o exame aconteceria em outubro de 2020, mas foi adiado. Grande contingente dos alunos não conseguiu se preparar adequadamente para as provas. Sem aulas presenciais ou com aulas remotas incapazes de cumprir o papel pedagógico antes planejado. Houve quem não tenha tido acesso a aulas, sejam presenciais ou remotas. Além disso, as dificuldades em acompanhar as aulas pela internet afetaram de forma bem mais intensa estudantes da rede pública de ensino.

“A verdade é que a manutenção das provas, em um ambiente de pandemia, privilegiou candidatos que possuem melhores condições financeiras para se preparar, para se deslocar até o local do exame”, disse a docente Juliana Souza, da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. “É notório, em meio a situação posta, que o Enem de 2020 foi o mais elitista de todos os tempos”, considera.

Segundo ela, há pessoas que decidiram não participar por medo de aglomeração, como uma ex-aluna hoje secundarista. “A jovem ainda cursa o 2º ano, mas faria a prova para treinar. Conseguiu a isenção da taxa de R$90, mas não compareceu ao local do evento, com medo da pandemia", conta a professora. “A grande aflição dessa estudante, além do medo de contaminação pela covid-19, era perder o direito à isenção no próximo ano. É uma seleção muito desleal, sobretudo em meio à uma pandemia, com mais de 200 mil vítimas, porque é evidente a situação de vulnerabilidade de muitos estudantes brasileiros que vão ter sua chance de acesso ao ensino superior ainda mais reduzida”, avalia.

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse que o Enem foi um sucesso porque mobilizou diversos estudantes em torno da prova, apesar de ter dito que houve campanha contra o exame feita pela mídia. Vivendo em mundo paralelo à maioria dos discentes, afirmou ainda que os índices foram satisfatórios – sem mencionar as diversas ações judiciais pedindo o adiamento do Enem durante a “segunda onda” de infecções por coronavírus no Brasil.

Jornais comerciais informam que o Enem 2020 motivou o ajuizamento de 112 ações judiciais em 18 Estados, das quais apenas uma, referente ao Amazonas, dada a calamidade do local, foi deferida.

Da Redação da ADUFF| Aline Pereira

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